A entrevista aos jornalistas 
Foi com a frase "é preciso ficar de boca fechada" que a entrevista da Época com o jornalista Gay Talese (republicada abaixo) prendeu minha atenção e me fez avaliar os estudantes que em breve sairão do curso que a FEF promove na área de comnunicação e lamento pela falta de interesse de uma maioria que deverá terminar o curso e se projetarem no mercado de trabalho que cada dia fica terrivelmente mais difícil. O comprometimento, como meu editorial na revista MEGA deste mês focou, é a grande arma secreta que um jornalista pode utilizar. Ter fontes vale mais que um excelente texto. Ter network humana vale mais que o Google e ter objetivo para utilizar o trabalho como tranpolim para o objetivo e não ele ser o objetivo, são dicas valiosas para ser ter algum sucesso. O jornalista tem que viver veículo, 24 horas por dia. o jornalista tem que respirar informação e troca de informações, até quando dorme em um avião ou ônibus. De uma simples conversa, retira-se sua melhor pauta. A pauta diferente, a que ninguém teve aquele feeling e voce sim. Jornalismo é muito além do jardim.
Escrito por Gilberto Musto às 20h44
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AOS ESTUDANTES DE JORNALISMO E NOVATOS NA PROFISSÃO “É preciso ficar de boca fechada”
O jornalista, em Paraty, concedeu esta entrevista a revista Época e diz que ouviu da mãe, dona de uma loja, a lição que o ajudou a formular seu método de trabalho ÉPOCA – Onde você lê as notícias? Gay Talese – Recebo o The New York Times em casa e o leio todos os dias. Levo duas horas, é uma leitura muito cuidadosa. ÉPOCA – Não usa a internet? Talese – Não. Nem para usar e-mail. ÉPOCA – Não teme que esse ritual matutino esteja com os dias contados, com a crise que atingiu seu jornal preferido? Talese – Não tão rápido! Ainda não tenho certeza de que ele não tem salvação. ÉPOCA – Mas a crise é um fato, certo? Talese – Acho que o jornalismo, e não o Times, está sendo ameaçado pela internet. E o principal motivo é que a internet faz o trabalho de um jornalista parecer fácil. Quando você liga o laptop em sua cozinha, ou em qualquer lugar, tem a sensação de que está conectado com o mundo. Em Pequim, Barcelona ou Nova York... Todos estão com a bunda sentada olhando para uma tela de alguns centímetros. Pensam que são jornalistas, mas estão ali sentados, e não na rua. O mundo deles está dentro de uma sala, a cabeça está numa pequena tela, e esse é seu universo. Quando querem saber algo, perguntam ao Google. Estão comprometidos apenas com as perguntas que fazem. Não se chocam acidentalmente com nada que estimule a pensar, ou a imaginar. Às vezes, em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. É aí que você descobre a vida como ela realmente é vivida. ÉPOCA – A internet é incapaz de chegar a essa “vida como ela é”? Talese – Alguém precisa levantar a bunda da cadeira e ir para a rua. O bom jornalismo é feito na rua. ÉPOCA – Se o caminho da profissão não é a internet, que futuro você imagina para o jornalismo? Talese – A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. A notícia tem de ser escrita como ficção, algo para ser lido com prazer. Jornalistas têm de escrever tão bem quanto romancistas. ÉPOCA – É uma exigência sua? Talese – Eu sei que é difícil... Mas jornalismo não é fácil. Em nossa profissão, o que vem fácil não é bom. Jornalismo bem feito é muito difícil. Se é fácil, qualquer um pode fazer. Se qualquer um pode fazer, você precisa ser especial. ÉPOCA – Você é a favor de um diploma universitário para exercer a profissão? Talese – Tenho ouvido que, no Brasil, essa é uma discussão atual. Um diploma? Não... Para fazer jornalismo você precisa ser curioso, ter disposição para sair às ruas e ter paciência para ouvir as pessoas. Se você fizer a mesma pergunta dez vezes para a mesma pessoa, vai ouvir dez respostas diferentes. As pessoas mentem. E você precisa de tempo para buscar a verdade no que elas dizem. Se você não tem tempo para ouvir, não está comprometido com a profissão. Isso a faculdade não ensina. ÉPOCA – Jornais e revistas impressos são a forma ideal para publicar notícias? Talese – Espero que sim. Não sei o que acontecerá em 20 anos, mas acho que a leitura, seja de um jornal ou de um romance, é uma maneira fantástica de aprender as coisas. Não sei se realmente importa onde você está lendo. Você pode ler em um Kindle (livro digital), ou na tela de um computador, ou na televisão, como faço todas as noites. Mas eu não vejo as notícias que quero na TV. Ela vive de fatos como protestos no Irã, ou um ataque terrorista no Afeganistão, ou a queda de um avião. Um bom jornal e uma boa revista vão além disso. Ainda não sabemos, por exemplo, o que derrubou aquele avião da Air France. Ainda não sabemos exatamente o que matou Michael Jackson. Aos poucos, repórteres investigativos vão descobrir, indo para as ruas, falando com as pessoas, perguntando várias vezes. Eu não sei se os blogueiros farão isso. ÉPOCA – Você foi consagrado como um dos ícones do new journalism, que é justamente a aplicação desse ideal de jornalismo que você tem. Se não foi na faculdade, onde aprendeu isso? Talese – Minha mãe foi minha influência. Ela tinha uma loja de roupas e queria saber quem eram as mulheres para quem ela estava vendendo vestidos. Para saber como elas realmente queriam se vestir, minha mãe precisava saber quem essas mulheres eram, o que sabiam sobre elas próprias e sobre a vida. O que ela fazia era uma entrevista, um talk show. E eu estava ali vendo. Eu com 10 anos e elas perto dos 50. ÉPOCA – O que você aprendeu? Talese – Aprendi a importância de ouvir pessoas comuns. Aquelas não eram pessoas famosas. Eram apenas pessoas comuns com dinheiro para comprar vestidos. Não eram contadoras de histórias, atrizes ou dramaturgas. Eram pessoas da cidade, com histórias para contar da cidade. Sobre o que aconteceu ontem, sobre a economia, sobre os parentes que foram para a guerra, sobre o declínio da moral na sociedade... E minha mãe me ensinou que é importante ficar de boca fechada. Em entrevistas, é comum ouvirmos perguntas enormes, quase discursos, e, quando o entrevistado começa a falar, é logo interrompido.
Escrito por Gilberto Musto às 00h27
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